domingo, 21 de outubro de 2012

escrito XXXI


j.

quero contar-te do espaço que me ocupas. como me deformas o peito: que engorda, que se enche, que se rasga: porque te respiro. quero contar-te tudo, para que me entendas. falar-te da novidade dos meus dias agora que acordei. das luzes, das cores, das texturas, dos cheiros frescos da manhã, dos sons, das formas, de ti, de mim: de nós. deste espetáculo berrante sem plateia. quero falar-te das coisas que me assustam, porque não as compreendo. porque nunca as vi. uma agnosia sem jeito, sem competências. quero contar-te tanta coisa. Mas por agora, respiro-te, respiro-te tanto, num ritmo incessante: num ritmo de carrossel de feira, de redemoinho salgado, de mil cavalos selvagens que galopam vendados sem direcção. 

escrevo-te desta caravela sem leme, sem norte. escrevo-te para que me encontres, para que nunca me percas.

sinto-te: porque fazes parte de mim: porque nos respiramos. e é este o espaço que me ocupas. o que me preenches. 

e já não me distingo, porque nos misturamos.